Seminário “Cultura pra Quê?” debate formas de um outro futuro possível

Published On: 25/04/2026 20:28

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Em um cenário global marcado por ataques à democracia e o avanço de novas formas de controle, o painel “Partir permanecendo. Êxodos para um outro fim possível”, realizado nessa sexta-feira (24/4), durante o Seminário Internacional “Cultura pra Quê”, desafiou o público a pensar possibilidades de enfrentar o capitalismo e desenvolver estratégias para um futuro que supere a desumanização, a exploração e a exclusão de grupos sociais.

 

A cientista política argentina Verónica Gago trouxe ao debate o fenômeno da “fascistização”, uma estratégia e uma política que dá cada vez mais poder ao capital. Com esse fenômeno, é reduzido o investimento na reprodução e nos espaços de poder da classe trabalhadora, além de serem criadas novas divisões de classe e raça.

 

Professora da Universidade de Buenos Aires e da Universidade Nacional de San Martín, a palestrante detalhou como a dívida financeira deixou de ser um problema técnico para se tornar a própria condição de subsistência na Argentina. Ela analisa o discurso de governos de ultradireita, como o de Javier Milei, que substitui a garantia de direitos básicos, como salário e moradia, pela promessa de “liberdade financeira”. Dessa forma, o ultradireitista implementa no país uma lógica em que “a dívida se converteu em uma condição comum”, segundo Gago, e é abordada por todos os grupos sociais: estudantes, trabalhadores, aposentados, mães que são arrimo de família, pessoas com enfermidades, desempregados.

 

Segundo Verónica Gago, um futuro possível reside na coletivização das resistências e na retomada da potência vital que o capitalismo financeiro tenta capturar.

 

As práticas econômicas adotadas na Argentina correspondem à essência do capitalismo e são reproduzidas em diversas partes do mundo. Entretanto, este não é um modelo exclusivo. A socióloga, escritora e pesquisadora Maya K’iche’ Gladys Tzul Tzul trouxe ao seminário “Cultura pra Quê” formas de governo indígena que, segundo ela, se mostram “sistemas de governo que recuperam, defendem e controlam as terras comunais e seus bens comuns”.

 

Originária de Totonicapán, Guatemala, Tzul Tzul defende que o caminho para um futuro possível reside na política comunal: uma forma de organização que não se centra no indivíduo, mas em um sujeito coletivo capaz de gerir e defender os meios concretos de reprodução da vida. “O trabalho é para a produção do bem comum, significa a força social de que todos seremos beneficiados”, explica. Nesse sentido, esses grupos desenvolveram a garantia da memória das mulheres como um bem comum.

 

Abalar a estrutura do capitalismo, segundo a ativista no campo do pensamento Suely Rolnik, exige mais que estratégias de alteração do sistema socioeconômico: passa por uma “consistência existencial”.

 

Rolnik utiliza o conceito de “pulsão” como a força que impulsiona as ações dos seres humanos e identifica duas faces distintas que compõem nossa experiência: a face do “eu”, onde aprendemos o outro como uma presença fora de nós, e a face do vivente, quando há a experiência do corpo em interação com o ecossistema. A segunda face mostra que o outro é aprendido como uma presença viva em nosso corpo através de frequências de vibração que geram sensações novas, chamadas de afetos. Rolnik chama essa dimensão de “embriões de outros de si”, uma espécie de potência de transformação que carregamos no corpo. Entretanto, segundo ela, o sistema capitalista tenta “cafetinar” essa potência de transformação para a “acumulação de capital narcísico, social e econômico”, impedindo que aqueles embriões germinem e, dessa forma, os seres humanos continuem sendo apenas “zumbis reprodutores” do sistema atual.

 

Para Suely Rolnik, a saída para um futuro possível não é um abandono geográfico ou literal do mundo. É necessário realizar “torções” no regime de inconsciente colonial-racial-capitalista que nos mantém como “zumbis reprodutores” do sistema.

Fonte: Tudo Ok Notícias

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