Zema transforma Gilmar em cabo eleitoral
Compartilhar
Romeu Zema talvez ainda não tenha, hoje, densidade eleitoral nacional comparável aos principais nomes da corrida presidencial. Gilmar Mendes, por sua vez, acumula décadas de experiência institucional e influência no centro do poder em Brasília. Ainda assim, no embate público entre os dois, há um fato difícil de ignorar: Zema está vencendo a batalha da comunicação porque conseguiu simplificar um conflito complexo e transformá-lo em narrativa política de fácil compreensão.
Enquanto Gilmar fala para o ambiente jurídico e institucional de Brasília, Zema fala diretamente ao eleitor comum. Enquanto o ministro reage com instrumentos formais do poder, o governador responde como alguém em pré-campanha presidencial. Foi exatamente isso que ocorreu após Zema publicar um vídeo satírico com fantoches representando Gilmar Mendes e Dias Toffoli. A resposta do ministro foi pedir providências a Alexandre de Moraes no inquérito das fake news, elevando um conteúdo que poderia ter permanecido restrito a nichos políticos a um debate nacional. Sem perceber, Gilmar acabou se transformando em um cabo eleitoral involuntário de Zema.
A reação acabou produzindo um fenômeno conhecido como efeito Streisand. O termo surgiu em 2003, quando Barbra Streisand processou um fotógrafo para remover da internet uma imagem aérea de sua mansão em Malibu. A foto havia sido vista por poucas pessoas. Depois da ação judicial, virou notícia internacional e se espalhou pela internet. O mecanismo é simples: quando alguém poderoso tenta esconder algo de pouca relevância pública, muitas vezes desperta curiosidade e amplia exatamente aquilo que queria apagar. Foi o que aconteceu com Zema.
O problema para Gilmar é que existe ainda uma contradição difícil de explicar. Em 2018, no julgamento da ADI 4451, o Supremo decidiu por unanimidade derrubar trechos da Lei das Eleições que proibiam humor, sátiras e caricaturas contra candidatos durante o período eleitoral. O relator do caso foi Alexandre de Moraes, que afirmou não ser possível qualquer forma de censura prévia contra manifestações humorísticas. Gilmar Mendes acompanhou esse entendimento. Na prática, o STF afirmou naquele momento que a democracia precisa tolerar crítica, ironia e humor, inclusive quando são desconfortáveis.
A pergunta inevitável agora é simples: o que mudou? Se a sátira era protegida quando atingia políticos em campanha, por que passa a ser tratada como ameaça institucional quando atinge ministros do Supremo? Essa incoerência deu a Zema uma oportunidade política valiosa e ele percebeu isso rapidamente.
A resposta do governador foi direta e pensada para redes sociais. Ao afirmar que seu “linguajar brasileiro simples” era diferente do “português snob dos intocáveis de Brasília”, Zema criou uma narrativa facilmente assimilável. De um lado, ministros apresentados como integrantes de uma elite distante. Do outro, ele próprio tentando ocupar o papel de político que fala como o cidadão comum.
Essa estratégia encontra terreno fértil em um país cansado de linguagem rebuscada, decisões incompreensíveis e disputas travadas dentro de gabinetes inacessíveis. Zema entendeu algo que parte da elite institucional ainda resiste a aceitar: no ambiente digital, quem consegue traduzir conflitos complexos em mensagens simples costuma sair na frente.
Isso não significa que ele tenha razão em tudo, nem que ataques irresponsáveis ao Judiciário devam ser tratados com normalidade. O Supremo tem papel essencial na democracia e precisa ser protegido de ameaças reais. O problema surge quando proteção institucional passa a parecer censura ou blindagem contra crítica, sátira e humor político, especialmente quando a própria Corte já decidiu em favor dessa liberdade.
Gilmar pode ter argumentos jurídicos que parecem sofisticados. Zema, neste episódio, mostrou ter algo mais valioso na política contemporânea: timing, narrativa e linguagem. E eleição raramente premia quem escreve o voto mais técnico. Costuma premiar quem consegue ser compreendido primeiro e demonstra ter o melhor argumento.
Felipe Vieira é jornalista.
Fonte: Diário do Poder

